50 é justo

É noite aqui no litoral. O vento frio atravessa os prédios, atordoa, e me empurra para dentro de mim mesmo. Pensando e pensando, caí numa daquelas recordações que não envelhecem bem — as que mexem com a minha aparência.

Era uma quinta-feira. Faltava só um dia de trabalho na semana, mas as aulas tinham acabado: só nos veríamos um mês depois. Nesse tipo de noite, tomar um ou dois drinks deixa de ser convite e vira quase obrigação.

Saímos da última aula caminhando em bando. Vários iam por politicagem, para manter convivência com o resto da turma. Eu segui de lado com os mais próximos, comentando a prova.

No bar, a conversa virou aquele inventário discreto: onde você trabalha, onde já trabalhou, onde mora, qual carro comprou. Foi aí que uma colega reparou que eu tinha passado por poucas empresas e perguntou:

— Quantos anos tu tem?

— Vinte e quatro.

— Hahaha, para de mentira. Se tu tivesse vinte e quatro, estaria MUITO acabado.

Tirei a carteira do conselho profissional do bolso. Apontei o ano de nascimento. Ela olhou, e o rosto mudou — não exatamente de vergonha, mas de medo: medo da minha reação, não do que tinha dito. Inconformada, emendou:

— Ah, mas tu sabe que é pela tua postura muito profissional, né?

— Claro. Já ouvi tantas vezes que nem me incomodo mais.

— Para! Quantos anos tu acha que eu tenho?

Eu sabia, por um colega de trabalho dela, que ela não passava dos quarenta. Mas estava de saco cheio.

— Ah, uns cinquenta tava bem justo.

Silêncio. Aquele silêncio que enche o prato de quem se vinga e esvazia o estômago de todo mundo na mesa. Ela foi sincera, eu também — chame como quiser. Só que a culpa, nessas horas, recai sempre sobre o mais fraco perante a sociedade. Quando ela saiu da mesa, vieram os elogios:

— Nossa, deixa eu te contar: mulher depois dos quarenta não se fala mais — disse uma colega.

— Tu fez de otário, hein! — ria outro.

— Quando ela falou que eu estava acabado, não vi ninguém de vocês se mexer. Agora querem se fazer de santos? Vão se arrombar.

Tomei uma dose de cachaça com limão.

Não me senti mal naquela hora. Fiz o que queria, com a liberdade de agir e sem a culpa de pensar.

E ainda assim, é noite aqui no litoral, o vento ainda atravessa os prédios, e essa quinta voltou. Não foi pela vingança — essa rendeu cachaça e risada. Voltou pela frase dela, que ficou. Pela carteira que precisei tirar do bolso para provar uma idade que era minha. Da próxima vez, ela vai pensar duas vezes antes de comentar a aparência alheia. Eu também.

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