Sem assunto

Ninguém repara na difícil vida que aquele que crônicas escreve passa durante a vida. Diariamente precisamos nos sentar – por quinze minutos que sejam – para escrever algo que vai te tocar. Para melhor ou para pior, você vem até a minha coluna pois deseja saber o que acho. Pois bem, chegou o grande dia para mim. O dia que estou sem assunto, mas cheio de recordações. Vou te dar um agrado: vou narrar em segunda pessoa.

Você entra pela beirada da porta. Olha com cuidado para os lados com as pupilas dilatadas e vê se ninguém te seguiu ou observou. Olha de maneira discreta por debaixo da linha da porta do 508 e analisa friamente a passagem do som, dos ventos e da luz que vem de dentro. Se nada encontra, deduz que ali não há mais ninguém para se preocupar. Ainda com o centro médio da coluna escorrendo uma gota fina e veloz de suor, você pega a chave da casa e tenta acertar a fechadura sem olhar para ela. E erra.

Erra mais uma vez e o ritmo da respiração muda. Você olha atônito para seu subconsciente e pergunta o que está acontecendo. Por que você não consegue encaixar a chave sem olhar? Será que tem algum problema cognitivo? Talvez seja burro demais. Talvez não tenha tido o desenvolvimento que se espera para alguém da sua idade. Finalmente se rende, encaixa a chave na fechadura, gira duas vezes para a esquerda e entra.

Você está dentro do apartamento comigo. São quarenta metros quadrados e a vista alcança quase tudo que se pode enxergar nesse pedaço de área. Olhando para frente, você nota pela periférica a luz da máquina de lavar em vermelho. As roupas estão lá lavadas e centrifugadas. Você se aproxima dela e sente um cheiro estranho. Aquele cheiro de mofo impregnado. Desiste e olha para a encardida pia ao lado. Pratos empilhados, copos com os bocais distantes de qualquer lance cristalino e talheres empilhados como numa feira de antiguidades. Ali não há mais o que se orgulhar.

Você mira o sofá da estreita sala. Cinza e coberto com uma manta indiana. Amassada e caída apenas para o lado que alguém parece usar. Duas taças de vinho repousam uma em cada cabeceira do sofá, desdenhosamente manchando o lugar que repousam de largos círculos vermelhos da cor da bebida que as serve.

Olhando de relance para o quarto, um frio na espinha o toma. A memória daquela encostada na extremidade inferior olhando para ti e esperando para transar toma a mente de quem prefere naquilo não pensar. A coberta repousa parte sobre a sombra que faz a janela enquanto a outra toma um belo banho de sol. Mas é melhor não olhar muito para lá. E você não se importa.

Vira à esquerda e encontra o escritório. A porta está entreaberta e te convida a entrar. Na mesa, duas ou três xícaras de café aguardam a transferência para a bancada da cozinha. A estreita e fina camada de luz que entra pela janela convida a poeira que repousa no ar para dançar; e ela aceita o convite. Confuso, seu pensamento divaga por entre os títulos das estantes e pela bela salsa que dança à sua frente.

As estantes guardam uma fortaleza que previne àquele que ali não deveria entrar. Os títulos variam e vão de um adolescente que busca identificação com outro até livros que contam os momentos mais horríveis dessa que chamamos de humanidade. Ao lado da máquina de escrever, um buda com a bunda virada para a porta. Dizem que chama dinheiro.

Cansado, você levanta e entende que é hora de jantar. Pega o celular e contrata uma corrida particular. O restaurante divide uma bandeira do Brasil com outra que parece aquela que uma vez fora hasteada em Paris a época do terceiro reich. Os garçons são simpáticos e me encontram a porta. Peço logo uma bebida com um percentual considerável de veneno e me sento na mesa.

Enquanto isso, um garotinho negro e com um vinte ou trinta panos a mão, entra também no estabelecimento. Ele olha para mim e exclama:

– Quer comprar um pano, moço?

– Não, obrigado.

O garçom vem pela estreita porta da cozinha e pede que ele se retire.

O garoto foi. A minha fome também.

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