Pela literatura

O título não poderia – e não deve – ser mais representativo. É sobre ela que eu quero cronicar e amar no dia de hoje. Não tão arrogante para ser taxada de deusa, nem menos importante para sem adjetivos ficar. A rainha literatura está entre nós desde 3200 antes do Cristo nascer. Entre nós seja pela fala ou pela escrita, pelo gestou ou pela face, a literatura acompanha e documenta a história da humanidade há muito mais tempo que sejamos capazes de chutar.

Para mim, a literatura é sinônimo de companhia. Desde que acreditei que uma mulher onze anos mais moça que eu fosse capaz de me amar, eu senti a sua dose. Chorava e chorava, escrevia um pouco, mas a intenção não era mais que desabafar. Olhava para os lados e me sentia só. Achava que os livros tinham a única importância de me ensinar. Nunca de acompanhar, de me amar e de contar uma história para ninar.

Mas, a literatura não serve só para ensinar. Serve para mostrar. Quando ainda caminhando sem o menor rumo no parque ou ainda quando batia com força a gaveta que guardava a foto que tenho com meus pais, sentia que a melhor lente de contato que poderia comprar não tiraria raios de luz do meio externo. Mas, do interno.

Sentado em frente aquela que me ajuda a decifrar os enigmas da mente, ela me sugere. “Seus testes são inequívocos. Sua habilidade principal é com as palavras. Entende e escreve com a alma. Por que não aflora isso em si?”. Com o olhar distante e pensando em mil e um cenários diferentes, eu admiro sua fala e apenas digo que vou pensar.

Saí dela caminhando mesmo. Mirando o sôfrego cair das lágrimas do céu no asfalto, eu vou dando um passo após o outro rumo a livraria do bairro. Não era das melhores, me rebatia nos demais leitores a cada passo e sentia que nada ali me pertencia. Os livros pareciam um mix de “vendo desde sempre” e “quero enganar uns trouxas”. Eu só sabia o que eu não queria ler: autoajuda. Fora isso, estava aberto.

Olho para entre o teto e as estantes e vejo que várias delas guardam títulos de gênero. Passo um a um e escolho um livro de cada um. Saí de lá com algo em torno de nove livros. E guarda-os até hoje no canto com maior sombra e que o vento bate com mais força da minha estante.

A literatura, não só te tira do tédio. Também tira do sofrimento das mentes que nas pedras se rebatem. A cada leitura, tenho a certeza de que coloquei mais quatrocentas ou quinhentas páginas de conhecimento para dentro. Não só o ego de quem precisa de diferenciar, mas o ego de quem precisa ser validado é atingido.

Quando no inverno, as cobertas me esquentam e os livros me enxugam. As lágrimas de que não lê são mais pesadas e derrubam no chão um sem-número de novas mágoas. O inverno nos deixa tristes por que nos tira do caminhar das ruas. Do correr dos parques e adiciona uma camada de mágoa no coração gente. O livro olha para mim e me obriga a encarar uma nova realidade, uma nova história. Uma nova possibilidade de rir e chorar.

É também lamentável ver que nos corações e mentes de diversos leitores mora a necessidade de mandar. Mandar no gosto alheio pela literatura mais breve e para a literatura mais bruta. Quem te disse que você é obrigado a ler todos os clássicos? Quem ainda te disse que serás mais inteligente só por que os leu? Se leu, parabéns. Se não leu, vale a pena dar uma olhada. Mas, se você não lê nada, aí você tem um problema. Que mania de querer ser mais que os outros!

Ai dona literatura, tenho que te dizer. Você é minha paixão, minha flor e meu buque mais comprado e adorado de todos os tempos. Quando penso em vida após a morte, penso mais se poderei te ter lá do outro lado ou se terei que aprender a viver sem você.

É uma pena olhar e ter que ver seus admiradores cada vez mais distantes ao longo do tempo. A cada dia que passa, a nova geração se mostra desinteressada por ela. Ainda mais instigante é ver que o número de livros vendidos aumentou, mas o número de pessoas que se consideram leitoras diminuiu. Mostrando, de forma muito clara, que os seus admiradores sabem do seu poder e a estimam, mas não provam da sua benesse.

Eu te amo. E espero que os idiotas que adoram vídeos de trinta segundos ainda possam te ter na mente um dia. Ah, que vontade de te abraçar e beijar. Deitar com você e por longas horas passar.

Dona literatura, que sua vida seja longa e lenta como os corações e mentes dos que te deixaram entrar.

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