Uma bela sanfona toca. Um homem de belos cabelos longos, a passar dos ombros, corre. Beberico mais uma dose do uísque mais caro que pude pagar no botequim da esquina e começo a me lembrar de você. A mulher que um dia eu quis ver de branco, que um dia eu quis tocar e amar. Que, mais que um dia, eu amei e queria trazer para a vida. Pelo resto que ela dure, pelo resto que eu conseguisse viver ao seu lado. Era você, mulher, que se sentava ao meu lado, tirava a roupa, e eu já te imaginava no altar. Vestida de branco. Vestida de noiva. Vestida para casar comigo. Essa é a história de um garoto que perdeu a linha com a mulher. O ser mais belo desse planeta. E, por mais que eu relute, você já estava lá há muito mais tempo que eu conseguiria imaginar.
Era nerd, branco e gordo. No auge dos meus seis anos, sento-me no banco do ginásio esperando minha vez de entrar no jogo de futebol e errar alguns passes. O professor de educação física manda eu aquecer para entrar. Olho para os colegas de time e vejo o torcer do nariz. O torcer de ver que eu entraria. Eu sabia que era ruim pra caralho, e ser aceito ali era uma maneira de dizer que poderia pertencer a algo.
Entrei, errei cinco ou seis passes. Fiz meu time tomar dois gols e saí. Sabia que dali não sairia nada. E realmente não saiu.
Fecho os olhos e tento lembrar de mais algumas memórias. Aquele mesmo garoto, sentado em uma cadeira de palha, fumando um baseado de maconha, vê a garota mais bonita do colégio sentada olhando pra ele e pensa: “talvez eu tenha uma chance”. Caso nada na minha vida tivesse dado certo até ali, você seria minha esperança.
Você tentou. Expurgou seus limites, fez de tudo para tentar me encaixar. Mas a verdade é que uma pessoa como você e uma pessoa com os meus desejos nunca poderiam estar no mesmo lugar. Você era radiante, seu sorriso iluminava o outro lado do planeta e qualquer garoto daquela escola queria encostar em seus lábios. É claro que eu não seria um escolhido. Apenas amigo.
Sua escolha dilacerou. Cada palavra sua reafirmando que eu seria apenas seu amigo dói em mim até hoje. Quase dez anos se passaram e aquelas memórias estão aqui, guardadas no coração. Indo e voltando a cada pulsação, aquela rejeição fez com que eu passasse de uma desconfiança para uma certeza. Não era mais um adolescente normal.
Eu chorei, chorei e chorei. Chorei dias a fio, ao ponto de me perguntar se um dia conseguiria não chorar por você. Demorei a aceitar. Aceitar que também te machuquei e que sua decisão pelo afastamento era definitiva. Entendi que ali não me cabia e aceitei que deveria ficar em minha sombra de rejeição nos relacionamentos por mais tempo do que havia planejado.
Foram alguns anos longe de uma mulher. Longe de qualquer impulso sexual. Aceitando que aquele mundo não me cabia, ou que eu não cabia nele. Tudo não passava de uma grande incapacidade de gerenciar a rejeição. O seu não doeu por anos. Ir até lá, guardar a memória de ter sido rejeitado sozinho em um quarto de hotel não é pra qualquer um. Mas eu teria achado uma solução. Achado.
As amigas. Elas eram sempre tão solícitas. Ainda mais que aquela vendedora de camisas no shopping. Faziam questão de agradar e de se fazerem bem-quistas. Nenhuma delas sabia contar qualquer coisa que não fosse uma mentira. Todas elas tinham esse defeito, mas eu decidi acreditar em uma delas.
Você era mais velha. Onze anos, para ser mais exato. Isso, para mim, soava como um violoncelo na orquestra. Mulheres da minha idade nunca me chamaram atenção para nada. Sempre as julguei como grandes entusiastas da maturidade, mas que, na verdade, não haviam atingido nem a metade do que consideravam ter disso.
Nosso primeiro encontro foi simples e estranho. Você entra na minha casa, pede licença e um copo de água. Sirvo-te sem me preocupar e você me pede para bebericar dois goles. Com o intuito de verificar se não havia ali alguma dose de boa-noite-cinderela.
Dali em diante, se daria uma das maiores ilusões da minha vida. Cada qual em sua realidade, eu acreditava que você poderia ser a mulher da minha vida. Suas ações e palavras arranhavam uma nota de violino, cada uma, em minha mente. Seu jeito de beijar, de abraçar e de me tratar fazia com que me sentisse mesmo especial.
Era uma pena que não duraria. No dia que te vi, de verdade, fora daquele personagem nojento que criara para vender a vida, vi ali que tinha caído em uma cilada enorme. Que nada do que me contara poderia ter sido verdade, ao fundo.
Hoje, sento em meu sofá e tomo mais um pouco desse uísque com uma única certeza: o José que sentava naquele banco no ginásio e se sentia rejeitado não desapareceu.
Ele tá aqui. Escrevendo e se sentindo um pedaço de algo cada dia mais longe de si.