Vai reclamar assim no inferno!

Acaba que reclamar vicia mesmo, né? Nunca havia parado para pensar sobre isso até a minha terapeuta alertar. A gente passa o dia inteiro procurando uma dor, uma culpa, algo para fazer, algo para falar. E a reclamação aparece como o ponto fácil. Vamos combinar que realmente é muito fácil. Você deita, arranja o telefone no ouvido, liga para alguém e reclama e reclama. O relógio gira, gira, gira e, quando se vai ver, já são duas horas perdidas em reclamação. O foda é quando esse vício aparece no trabalho.

Todo mundo conhece aquele reclamão que não faz nada para ajudar.

“Nossa, esse ar tá muito gelado. Vocês só podem ser filhos de pinguim mesmo.” Ouvi essa e fiquei observando. O ser humano que falou isso veio, olhou a temperatura e nada fez. Sentou na cadeira e enveredou um olhar preguiçoso e diabético para mim. Perguntei o que passava. Não falou nada e virou para o computador.

“Essas cadeiras são boas, mas arrombam com as costas de um.” Sentou e ajeitou meia dúzia de banha para cá e meia dúzia para lá. Espreguiçou e estalou as costas. Cada estalada parecia uma operação cirúrgica. O barulho estourava os tímpanos e nada do que ele falava me descia. Era um saco.

Volta do banheiro e fala:

– Olha, não sei quem fez a reforma disso aqui, mas tem que abrir essas janelas todas e deixar esse cheiro de tinta sair. Saí chapadão de tinta.

O cara não pagou pela reforma, não paga o aluguel e não comprou nem o computador que usa. Mas eu que tenho que anotar cada uma de suas reclamações e fingir me importar. Caso contrário, é um problema a mais na minha planilha.

Tentei desviar do assunto.

– E aquele projeto lá da empresa de abate de gado, que fim deu?

– Seus amigos aí peidaram na farofa pelo serviço. Fiquei sozinho pra fazer.

Na verdade, “peidaram na farofa” é um termo bem mal usado para “deixei para a última hora e agora estou sozinho”. O projeto pairava havia duas semanas e ele era o gerente. Bastava sentar e dividir as tarefas. Faltando dois dias para a entrega, resolveu fazer isso. E acabou tendo que fazer sozinho.

Ainda tinha um problema pior na empresa. Os arquivos eram guardados no WhatsApp. Isso mesmo: as pessoas escreviam, trabalhavam e depois mandavam pelo WhatsApp. Jogavam no grupo. Cada qual a sua versão.

– Jovem, comprei um armazenamento compartilhado para a firma. Gostou?

– É? Acho que vai ser o terceiro armazenamento que vou ter.

E daí? Quase anedoticamente, ri. Olhei e deixei para lá. Não valia a pena pensar demais sobre isso.

Não acabou.

– Vou precisar da sua ajuda para instalar esse armazenamento no meu desktop em casa.

– Beleza, se quiser, posso ir lá e instalar. Só peço um bolinho de bacalhau.

– Beleza.

No outro dia, sento na sala de reunião para trabalhar em conjunto na escolha de um novo funcionário para a empresa e ouço:

– Tá vendo, já quer ir lá em casa. Já quer bolinho de bacalhau. É brincadeira.

Eu ainda vou bater nesse velho.

O pior é que chamo de amigo.

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