A chaminé

Nada vale mais que um amigo. Ouvi esse belo provérbio na frente de uma barraca de sushi na liberdade de um japonês. Mais que tocar, suas palavras transformaram um vazio afetivo em uma chance de significar e caracterizar um personagem que começa na infância e esvaí como uma fumaça ao ar no curso da vida.

Eu tenho pouquíssimos. Poucos mesmo, coisa de contar nos dedos de uma só mão e ainda sobrar um ou dois dedos. Não tenho vergonha disso, seja pelo gênio complicado, seja pela minha incapacidade de manter uma relação ao longo do tempo, cultivei poucos amigos ao longo da vida. Mas, tem um em especial que vale contar a história.

Foi na faculdade que percebi o terreno fértil para desenvolver meu músculo político. A chance de você não conhecer ninguém e ainda ter que fazer grupo com três ou quatro pessoas todos os semestres é enorme. Você acaba conhecendo muita gente, e, no fim, faz alguns amigos.

A matéria era ridiculamente fácil. Nós só tínhamos que elaborar uma análise setorial básica e entregar uma apresentação. No fundo, ninguém verdadeiramente se importava com essa matéria até o dia da entrega chegar. Os dias foram passando e silenciosamente convivia com aquela pessoa que chamaria de amigo. Cruzávamos o corredor sem falar um com outro. Fingindo não nos conhecermos – porque de fato não nos conhecíamos.

Domingo umas 9h da manhã eu mando mensagem.

– Velho, a gente tem que sentar pra fazer essa naba de análise setorial.

– Oi, José. Claro, vamos falar sim. Pode ser amanhã antes da aula?

– Porra cara, fica muito em cima. Mas, pode ser sim. 17h me encontra no nono.

– Perfeito! Até.

Pensei, mas que babaquinha. “Oi, José”. Que trouxa fala assim com um colega de universidade? Eu não falo assim com quem paga meu salário. Quanto mais com quem nunca vi! “Perfeito!” Não sei nem o que comentar.

Tá bom, ficar reclamando não vai mudar nada. Deu umas quatro da tarde e fui logo para a universidade começar esse trabalho e tentar adiantar alguma coisa. Sempre acabava de um só jeito: eu ia fazer isso, mas antes passava na lanchonete pra pegar um pastel e não fazia nada – por isso já dei uma adiantada em casa.

Pois, foi. Fui a pastelaria, peguei um pastel de carne com ovo e um café com leite. Baita compra, quinze reais eu fazia uma bucha no estômago e não precisava jantar depois. Fico lá conversando com o vendedor sobre a semana no futebol. O cara era colorado absoluto, não aceitava que seu time não fazia nada além de perder.

Enquanto conversávamos o relógio girou mais um pouco e já são quase cinco da tarde – o horário que acertei com o zé mané lá. Despeço-me do caro vendedor e subo até as salas de reunião do nono andar. Acabou que comi pouco do pastel e ainda tinha mais um copo de café para beber. Sento na cadeira do canto e olho para o relógio. Não demorou e vejo pela periférica o colega chegando para nossa conversa.

– Oi, José! Vamos fazer a análise setorial?

– Velho senta aí. Já dei uma adiantada e vê o que você acha antes de eu enviar.

– Está ótimo! Você trabalha na área? Nunca vi tão boa.

– Vou enviar, beleza?

– Beleza.

– Cara falta muito pra aula ainda, vamo dar uma volta?

A cara dele não escondia, parecia que nunca tinha ouvido aquela palavra na vida. Dar uma volta parecia ter sido pronunciado em hebraico.

Caminhamos em volta do campus e como bom fumante que era, precisava fumar. As mãos já estavam formigando, a cabeça doendo e a impaciência já estava estourando os miolos. Fito a rua da frente e vejo um bar que não deve ter mais que cigarros e cervejas.

– Velho, vamo ali tentar achar um cigarro.

Ele nem respondeu. Pensei até que pudesse não ter me ouvido ao certo, mas, hoje sei que o problema era mais extenso que a audição. Atravessamos a rua e fomos até o bar. Peço dois cigarros e caminho até a calçada. Fumo olhando o movimento dos carros e vejo que nada além do frio estava presente. Esse meu amigo parecia que nunca tinha visto um cigarro na vida. Os olhos não paravam de mirar a rua; sua cara embasbacada e a mão ao nariz escondiam porcamente seu desprezo pelo fumo. Quem sabe por mim também.

Na hora, nem pensei nele. Fumei meus dois cigarros e fomos até a aula.

Depois daquele dia, nos falamos em quase todos. E ele me surpreende sempre. Esses dias, estávamos falando ao telefone e ele me sugere o seguinte insulto.

– Cara, não me esqueço nunca o dia que a gente se conhecer.

– Mas que papo de casal do caralho, que dia foi esse aí?

– Como assim, cara. Você me chega derrubando tudo quanto era pastel no chão e um copo de café. Me chama de trouxa e ainda me leva pra fumar dois cigarros.

– Pelo visto deu certo!

– Pois é. Parecia uma chaminé. Não contente com um, fumou dois.

Que cara arrombado! Tinha que ser meu amigo mesmo. Logo que saí da liberdade, liguei para ele e contei essa história novamente. Acho que é a décima ou décima segunda vez que o conto, e rimos sempre. Quem sabe escreve uma crônica, ele falou.

Tá aqui.

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