Coberta

Têm pessoas que a gente acaba levando para a vida. Goste ou não, elas estão lá, e você acaba lidando com elas ao longo da finitude. Eu mesmo achei que nunca mais veria um casal que marcou minha infância. Eles passaram longos anos sem aparecer, mas acabaram achando um jeito de voltar. Realmente voltaram — mas eu não reconhecia mais aquele homem e aquela mulher. Sobrou o que minha criança guardou.

A criança mais velha não passava dos sete anos e eu estava na casa dos cinco. Os dois formavam um casal quase icônico em nossas vidas. Apareciam sempre uma vez ao ano — no verão. Papai comprava para sua empresa um produto que eles fabricavam, e na época era pedir demais que uma criança entendesse o que era “relacionamento” no mundo comercial. Eram amigos do papai e da mamãe.

Lembro deles, e logo sinto a magia que me tomava quando os via. Eles falavam numa onda de fantasia e novidade que inundava a nossa cabeça. Chegavam à nossa casa, e nós observávamos o carro se aproximar para logo correr até o portão, disputando quem seria o primeiro a abri-lo. Teria sido uma das visitas que guardei para a vida.

O ano não era mais que 2007 e, jovem leitor, smartphones não eram uma unanimidade no globo — sequer existiam. Fomos à praia. O marido do casal estava sedento por bebericar uma caipirinha com os pés na areia enquanto tragava o cigarro perfurado no filtro que fuma até os dias de hoje.

Chegamos lá, ele começa a realizar o sonho dele e nós começaríamos a nossa obsessão.

— Zé! Vem aqui, vem ver o que o tio comprou. Tem um joguinho pra você.

Joguinho? Era melhor que doce.

— Oi, tio. Cadê o joguinho?

— Tá aqui. Mas olha, só tem uma regrinha: não pode mexer nesse caderninho aqui do celular. É como o tio trabalha.

O “caderninho” era o que a gente chama de agenda no celular hoje. Na época, era sensação — acredite.

Passei horas e horas ali. O joguinho não teria muita graça hoje: era a cobrinha num Motorola novinho. Grande bobagem, eu sei — mas na época, era novidade.

O que hoje chama minha atenção não era necessariamente o joguinho, mas o fato de aquele casal representar um símbolo enorme de sucesso e riqueza para nós. Algo que realmente nos faltava.

Papai não tinha muito dinheiro, e viver era complementar a fazer algumas contas. Não dava para sair e comprar o que vinha à frente. Existia um porquinho — quando as moedas ali acabavam, não se comprava mais nada. Papai era doido, mas seguro financeiramente.

O tempo passou, as primaveras floresceram, os verões secaram e a vida financeira de papai ganhou forma. Mas a deles parecia esvanecer. Era época de pandemia e o ano era 2020. Foi ali que eu aprendi o que era dinheiro — e o quanto ele manda em algumas vidas.

A gente estava morando em Porto Alegre e lidávamos com o conforto financeiro de ter dinheiro guardado. Mamãe saiu do quarto com uma cara estranha: de um lado, um toque de felicidade irônica; do outro, uma sombra de preocupação.

— Filho, desce aqui comigo.

— Oi, mãe. Quanta carência — terceira vez que venho aqui hoje.

— Para de ser chato, miséria! Dessa vez é importante.

— Fala.

— Lembra da sua tia Regina, do Rio de Janeiro? E do seu tio Cláudio?

— Claro, lembro sim. Faz tantos anos que não os vejo. O que foi?

— Pois é, meu filho. Eles estavam aqui por Gramado. Ela me ligou e desabafou tudo. O Cláudio quase tentou suicídio. A empresa vai muito, muito mal e eles estão considerando fechar.

— Mas eles não têm dinheiro guardado no banco? Lembro que tinham muita grana.

— Então… não tinham muito. Pelo que entendi, gastavam muito com restaurante, viagens, festas e tal — e agora não estão vendendo mais tanto quanto antes e estão surtando.

O dinheiro estava contado em moedas, e o vazio do afeto abriu sua fenda.

Eu já entendi tudo que aconteceu. O casal trabalhava junto, vivia a rotina de trabalhar e faturar. O dinheiro entrava aos montes — coisa de cem a cento e cinquenta mil todo mês para só duas pessoas. O problema não é a quantidade de dinheiro. É a falta de afeto.

Por quantos anos viveram em meio a tantas festas e carros novos, a viagens ao exterior com grandes nomes da moda, a vestidos feitos sob medida por alfaiates da São Paulo Fashion Week.

Eu entendo — também vivi, e vivo, sustentado por algumas fantasias que sustento pelas cédulas. Não é fácil. No fundo, a verdade é que dinheiro é cobertor. Cobre, mas não abraça.

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