Perna

Na Marginal Tietê o trânsito não desgruda por um momento que seja. A vida é corrida, os carros passam e as pessoas atravessam a passarela como se nada as importasse além do próprio caminho. Com meu amigo dirigindo ao lado, pude olhar mais algumas coisas. Coisas essas que eu preferiria nem saber, sequer perguntar. Mas perguntei.

Parados no sinal, ele não repara. Eu reparo.

— Porra, por que esse maluco dirige essa moto com a perna pra fora? Não tem medo de tropeçar e cair?
— Ora, deve ter quebrado a perna e deveria estar repousando.
— Mas por que está em cima de uma moto então?

A resposta veio sozinha, antes de qualquer filosofia. Um entregador. Uma moto. Uma mochila. A perna para fora não era estilo, era improviso. Era aquilo ou não comer. Era aquilo ou não pagar o aluguel. Era aquilo ou não existir naquele dia.

Meu amigo disse isso e continuou dirigindo, como se tivesse comentado o tempo. Eu acompanhei as rodas daquela moto até onde o carro permitiu. Vi o tênis dele quase raspando no asfalto, o joelho duro, o corpo tentando manter um equilíbrio que não deveria estar sendo exigido de ninguém.

Eu fiquei pensando no conforto idiota das minhas perguntas. Perguntar “por quê?” é coisa de quem tem opção. Quem está ali não está respondendo uma pergunta. Está respondendo uma necessidade.

Às vezes, não é questão de acreditar naquilo que se vê, mas de olhar para a realidade do outro com dignidade. E de suportar o constrangimento de perceber que, para alguns, até o repouso é privilégio.

Continuei reflexivo até deitar na minha cama.

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