Não tem muito jeito. Chega um momento em que o absurdo captura o homem. O coração palpita; as têmporas suam e até o material da roupa parece se dissolver. A enxaqueca passa a ser companheira dia e noite e as pessoas ao redor perdem importância, como se o mundo fosse diminuindo. Um mal-informado dirá que isso é só crise emocional, só ansiedade. Mas eu estou fechado com Albert Camus e chamo isso de aparição do absurdo.
Estava eu, com os meus pés inquietos de sempre, mirando a estante de livros que eu mesmo escolhi. Cada título ali me cativou por uma razão específica. Olho um pouco para baixo e para a direita. Limpo um borrão de poeira e um pingo de café velho e lá está: O mito de Sísifo.
Ora. Um clássico. Não ler um livro como esse é quase um ultraje. Peguei, li algumas páginas e logo vi o tamanho do desafio. O livro é curto, mas cada frase é tão calculada que você perde tempo dentro dela. Tempo de verdade. Pois eu peguei e li. E hoje apresento minha tese, com a arrogância de quem acabou de terminar um clássico: o ansioso é aquele que ainda não aceitou o absurdo na própria vida.
Camus me pegou de cheio. Ele mostra as vulnerabilidades, encosta no que a gente evita, e depois joga na mesa o mito que nomeia o livro. Sísifo empurra a pedra colina acima sabendo que ela vai cair. E no dia seguinte ele faz de novo. Esse é o absurdo. Não a pedra. A repetição sabendo.
E aí eu olho para a minha própria vida e vejo quantas pedras eu empurro sem nem ter certeza de que estou empurrando a pedra certa. Trabalho, rotina, exames, prazos, boletos, planos de velhice. A gente vive como se houvesse um “ponto final” que justificasse a frase inteira. Mas o ponto final não é solução, é só fim. Que jeito pode ser dado?
Se você não trabalha, não come. Se você não acorda, você recusa a vida. E Camus não está dizendo “desista”. Ele está dizendo o contrário: viva, mesmo sem garantia, mesmo sem sentido pronto, mesmo sem contrato assinado pelo universo. O absurdo não é o peso. É a falta de resposta.
Aí entra a minha tese de novo, agora sem pose. Que adianta ser ansioso se nem o nascer do sol está garantido? Você pode fazer planos, claro. Eu também faço. Mas a ansiedade é esse vício de agir como se o futuro me devesse alguma coisa. Como se eu pudesse negociar com ele. Como se o dinheiro, o outro, o amor, a validação, a versão perfeita de mim mesmo fossem promessas assinadas.
Eu li esse livro denso em menos de uma semana. Fiquei fissurado. Cada palavra parecia desenhada com régua. E então Camus me empurrou para o “romance absurdo”. O estrangeiro. Uma obra-prima que atravessa gerações. Ler O estrangeiro depois de O mito de Sísifo é uma violência elegante: você entende a teoria e depois se vê no personagem. Não como cópia, mas como sombra.
E aí eu soube de uma coisa incômoda. Minha ansiedade não serve para nada além de me dar a ilusão de controle. Os cenários que eu crio são meus, só meus, porque não há como garantir a existência de nenhum deles.
Eu te garanto que vou ao velório da minha mãe sem perder o horário. Mas ainda preciso aprender a ser, às vezes, mais O Estrangeiro.