Há alguns meses, escrevi sobre a algema que um político coloca sobre si mesmo pelas decisões do passado. Não me surpreendeu sentir, hoje, algo parecido. Só que a minha algema não foi escolhida a dedo — ela foi dada com carinho.
Estou sentado num restaurante australiano em São Paulo. Uma tentativa, apesar de boa. Meus pais sentam à mesa e logo sinto uma pontada na barriga. A enxaqueca começa a ensaiar a chegada. Mordo o lado da bochecha sem querer. O pé já está remexendo sozinho. Conheço esse corpo — ele sabe de algumas coisas antes de mim.
Antes de qualquer amigo, professor ou namorada, os pais são a primeira plateia. Foi para eles que aprendemos a performar. Com eles que calibramos a régua — o que arranca aplauso, o que gera silêncio, o que vira sermão. Se você vai bem na escola, a ressalva aparece numa matéria de exatas onde poderia ter ido melhor. Se não vai, o sermão é longo e a chantagem é eterna. A plateia nunca some. Só muda de lugar.
É fácil dizer que é melhor ter um pai com dinheiro que sem. Poucos falam do que vem junto. Quase todo pai que hoje tem muito, teve pouco um dia. E quem teve pouco projeta no filho toda a dor de não ter tido — as vontades não realizadas, os desejos inviáveis, as oportunidades que não apareceram. Agora você pode ter o que eles nunca tiveram. Viver o que eles nunca puderam. Isso, silenciosamente, tem um preço.
O prato chega. Mastigo devagar e olho para os dois. A conversa segue o roteiro de sempre — trabalho, planos, alguma cobrança embrulhada em pergunta. E eu respondo no piloto automático, porque aprendi cedo qual resposta gera aplauso e qual abre uma discussão que vai durar a semana inteira.
Com o tempo, a mãe foi perdendo a voz própria. Quem sempre esteve ali como apoio, hoje aparece como ponte — entre você e a dor que o pai provoca. Ela não escolheu esse papel. Mas o ocupa.
O aprisionamento que algema dá não vem da maldade. Vem do amor — o que é pior, porque não dá pra processar como injustiça simples. A gaiola mais difícil de sair é a que foi construída com boas intenções. Você não consegue nem se revoltar direito, porque sabe que eles fizeram o que podiam com o que tinham.
Precisei sentar num divã para entender que muitas das decisões que assinei como minhas tinham outra caligrafia. Fui eu que escolhi — mas com quais vozes aplaudindo? Andar lado a lado com gratidão e narrativa própria não é tarefa fácil.
Ainda mais quando te acusam de faltar com a primeira.