Aqui na vida solteira, supermercado é uma vez por mês. Nada de doses homeopáticas e ir comprando aos pouquinhos. Faço o que eu não gosto logo de uma vez, então, pego os vales que pingam da firma e vou uma vez por mês no supermercado resolver a bronca. Acontece que esse mês eu fui no mercado, mas com o dinheiro da compra do mês, eu só consegui abastecer duas semanas.
Olhei para o carrinho e vi que não estava nem pela metade. Um pouco de legumes, um pouco de carne e um pouquinho de carboidrato – a insulina subiu. E já vou indo para o caixa. Chateado com a realidade, passei pelo setor de eletrodomésticos e fiquei olhando umas televisões para substituir a quebrada de casa. Na tela, Tarcísio de Freitas – Governador de São Paulo – acenando ao público com um boné escrito MAGA na viseira. Puxei no google e vi que isso significa Make America Great Again. Mas ele não é brasileiro?
O momento não poderia ser mais oportuno. Ainda essa semana, chega a notícia que o Galego (Donald Trump) aumentou e manteve a tarifação sobre os produtos brasileiros em 25%. Pensei um pouquinho e puxei no celular quais são nossos setores mais exportadores: calçados, têxteis, papel e celulose, etc. A notícia que aparecia logo em seguida não podia ser mais corroborante: o prato-feito (famoso PFzão) subiu 7,2% só esse ano.
Fiquei ali, com a pupila do olho meio dilatada, meio marejada e me lembrei de uma passagem modesta de Guimarães Rosa em Grande Sertões Veredas: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Ficamos sempre escondidos no arbusto, nem cagamos, nem damos a vez e votamos em políticos que nos emburrecem. O famoso país do futuro que nunca chega.
Se por um lado a maior economia do mundo se predispõe a pressionar os países que lhe fornecem produtos básicos, pelo outro temos políticos que apoiam uma medida que demite e oprime centenas de famílias brasileiras que dependem daquele salário de fábrica e de lavoura para alimentar suas próprias famílias.
Continuei minha caminhada do setor de televisões até o caixa do mercado, fiquei de butuca no preço de cada item. Dei uma passadinha no açougue e vi o quilo da picanha por R$ 120,00. Só para ter uma noção, no filme “Estômago”, o quilo do mesmo alimento em 2007 é citado em meros R$ 18,00.
Caminhei mais por mais algumas gôndolas e a surpresa era sempre a mesma, cheguei no caixa para passar minhas compras e fui ficando cada vez mais aflito a cada bipe da atendente, a tela com o subtotal da compra controlava o ritmo da minha respiração. A mistura que antes dava para o mês, agora dá apenas para uma dezena e meia. O dinheiro do vale que antes cobria a feira do mês, tive que completar com a fatura do cartão de crédito.
Paguei, tomei a nota como documento e quase a emoldurei e pendurei na parede. Esperando o Uber Bag para levar minhas compras para casa, não consegui deixar de pensar: como é possível alguém se candidatar ao Governo de um Estado brasileiro com um boné escrito MAGA? A gente precisa começar a votar com consciência e memória, isso é fato.