Rico junta riqueza, pobre divide pobreza

Ser nordestino e imigrar para o Rio Grande do Sul é uma experiência parecida com ser índio e fazer um intercâmbio para Londres. A língua parecia outra, as gírias não faziam sentido algum — “capaz, meu” — e eu desconfiava que eles riam da minha cara toda vez que conversávamos. Talvez rissem mesmo, mas foi assim que fiz uma “amizade”: ela cursava Direito e eu, Economia. Eu pobre e ela rica. Foi aí que ela soltou:

— Nossa, mas seu sotaque é muito engraçado. Favorito todos os seus áudios no whats! Vamos tomar um café um dia?

Aceitei sem titubear — e sorridente! Era a primeira vez que sairia de casa em muito tempo entre quarentena da pandemia e início da faculdade. A cafeteria ficava num shopping bem acessível: o Iguatemi. Mas fui mesmo assim. Trajei um moletom preto e um sapato marrom; consegui me disfarçar com primazia. Ela chegou parecendo saída de um filme interpretado pela Margot Robbie: sobretudo vermelho, vestido preto e um salto que a fazia chegar no 1,60m de altura com tranquilidade. Foi então que começou um monólogo afetivo que eu não sabia que existia — e ainda não sei ao certo.

— Ah, amigo, saí com um bofe esses dias, coisa mais linda: alto, loiro, malhado, formando em Medicina e filho dos donos de um hospital aqui de Porto Alegre. Mas olha, que chucrão! Não tinha modos nenhum, o beijei e logo pediu para ir ao banheiro da minha casa. Fazia aquele barulhinho intermitente — pausa — parecia que já tinha ficado excitado! Como pode uma coisa dessas…

— Ué, mas isso não era o esperado? Sinal que tava gostando…

— Isso é uma falta de educação horrível. Não o queria ver mais, mas minha mãe insistiu tanto que marquei um novo encontro.

— Mas por que você vai? Arruma outro homem, qual o problema? E por que sua mãe é uma questão?

— Ah, foi um encontro que minha mãe arranjou junto com a mãe dele… não dá pra sair fora assim tão fácil.

— Nossa, mas não faz sentido. Fala que tu não quer, ué!?

— Então, deixa eu te explicar: quase todos os encontros que eu vou são de filhos de amigos dos meus pais. É uma coisa meio que comum, pra juntar riqueza, sabe?

Não, não sabia — e continuo sem viver essa realidade. Na verdade, esses dias me peguei numa conversa bem parecida com a cuidadora do meu avô já idoso. Ela estava toda feliz porque finalmente havia comprado um terreno para construir a casa dela lá na saída da cidade. Fiquei feliz por ela; a conheço de muito tempo e sabia o quanto isso era importante. O salário dela, junto com o do marido, que é segurança de shopping, possibilitou um financiamento do terreno e da obra. Ao final da conversa, ela me colocou uma pauta que já considerava antes. Assim, ela bradou:

— Meu filho, você não falou que queria se mudar para um lugar maior em breve?

— Sim, Lu… o quarto onde moro hoje é apertadinho… sabe como é, né?

— Arruma uma namorada. As despesas ficam pela metade e o que você paga hoje é a metade de um maior, não?

— É…

— Então, arruma alguém pra pagar a outra metade. Se ela for legal, você ainda fica com uma boa companhia.

Fiquei matutando nisso até hoje, sentado no meu apartamento financiado pela habitação social de São Paulo — um lugar mínimo que ainda me obriga a descer na lavanderia compartilhada para lavar alguns trapos, pagando juro de 15% pelo privilégio. Pensei também na minha amiga de Porto Alegre que, tamanha sua pobreza de classe, enojou-se do Brasil e foi multiplicar sua riqueza em dólares na Austrália.

Deu duro, amigo? Toma um Dreher.

Que dureza!

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