Batendo duro no apoio de braço do sofá e tremendo de raiva, o Brasil tinha acabado de perder para a Noruega por 2×0 e estava eliminado da Copa do Mundo de seleções de 2026. Como economista, atirei logo para o primeiro incentivo que pensei: o salário do técnico e dos jogadores – como explicação para os desastres recentes. Mas será que é esse o problema da seleção brasileira?
Uma coisa é fato: a seleção brasileira não ganha de um europeu nas eliminatórias da Copa do Mundo desde 2002. A vitória sobre a Alemanha naquela final parece ter sido histórica demais para se repetir: caímos para a França em 2006; nem em 2010 quando caímos para a Holanda; em 2014 quando caímos para…; em 2018 para a Bélgica, 2022 para a Croácia e agora, em 2026, para a Noruega.
Então, seria o futebol europeu melhor que o nosso?
Talvez seja – e a probabilidade disso é grande. A liga inglesa é a mais competitiva do mundo; a alemã sempre rende bons jogos, a francesa também, a espanhola e assim vai. Mas, quando olhamos para a seleção, mais de 70% do plantel é composto por jogadores que disputam essas ligas – e nos maiores clubes! Então, era de se esperar que nós conseguíssemos acompanhar o futebol praticado por eles no mundial de seleções.
Ah, então o problema deve ser o técnico. Os técnicos brasileiros não estão na mesma prateleira.
Sim, de fato, são prateleiras diferentes. Mas o problema central não é o nome, mas as trocas constantes. Quando Tite perde em 2018 e 2022, já havia sacramentado – antes mesmo de iniciar a Copa – que iria abandonar o comando da seleção após o torneio. Então, já era tempo mais que suficiente para a CBF pensar em um novo treinador. Mas não o fez. Pensaram no Ancelotti, mas não se programaram. E aí trouxeram Diniz, Dorival Júnior e, só então, o Carletto, faltando 8 jogos para o início oficial da Copa do Mundo. Tempo mínimo e insuficiente para a filosofia do treinador – a repetição.
Logo, a seleção, sim, enfrenta um problema de técnico. Mas o problema também não é de incentivo: os R$ 6 milhões pagos ao italiano todos os meses estão longe de ser pouco. Então, a raiz não está aí.
Hmmm, acho que eu tenho uma suposição mais forte: a conexão torcedor-jogador na seleção.
O Vampeta (Marcos André Batista Santos, campeão do mundo em 2002 pela seleção brasileira), fala sempre em seu programa na Jovem Pan: “praticamente qualquer jogador da seleção pode passear hoje na Avenida Paulista com tranquilidade, sem ser reconhecido”. E temos que admitir que essa é uma verdade incômoda; o brasileiro tem pouca ligação afetiva com a seleção brasileira e os jogadores não enxergam mais a amarelinha como obrigação, mas como uma vitrine para os patrocinadores. Então, na vitória ou na derrota, pouca coisa importa. A vitrine já foi exposta e a figurinha da panini já foi impressa.
Quer uma prova disso?
Olhe a notícia que saiu recentemente: do grupo que viajou para a Copa, apenas 1 jogador – dos 26 convocados — voltou no avião da CBF. Isso é uma evidência clara de que a maioria ali já tem a sua vida financeira muito bem resolvida e pega seus jatos particulares para a residência oficial dos clubes logo após o fim da Copa.
E essa desconexão, para mim, nasce de um fenômeno ainda maior no mercado de futebol: a inflação que o tomou.
E tomou com gosto de gás! Um amigo mandou no grupo, sábado antes do jogo da eliminação, uma comparação ferrenha: em 2001, Zidane fora vendido para o Real Madrid por 80 milhões de euros. Hoje o Milan vai investir a mesma quantia por Gonçalo Ramos.
Daqui a pouco, o zagueiro do meu time do coração (Confiança, o azulão) vai sair pela mesma bagatela jogando a Série C do Campeonato Brasileiro. Que absurdo, Galvão!
Mais do que um número inflacionado para cá e outro deflacionado para lá, eu penso que a gente perdeu eficiência. O “valor” – ou melhor, o preço – dos jogadores subiu, mas a eficiência seguiu parada na mesma – se não diminuiu. Logo, o futebol brasileiro tem o mesmo problema da economia brasileira como um todo: a produtividade.
A hipervalorização dos jogadores, de forma geral, detonou a ligação com o povo, com o torcedor. O que antes era um evento para a família virou um espetáculo reservado à elite. E os jogadores acompanharam a indiferença que isso gerou.
Então, domingo a pipoca desceu amarga e cortando minha garganta igual canivete. Perder para uma seleção sem história nenhuma em Copas dói. Mas dói mais ainda ver o quanto a seleção hoje é desconectada dos seus torcedores e o quanto a CBF trabalha para isso acontecer.
Mais amargo ainda, vai descer o café quando a Argentina se classificar para a final. No momento em que escrevo, está nas quartas. Mas, vamos combinar que o caminho é fácil para eles agora.
Fechei a cortina e falei para minha mãe:
— Agora, sim… Vamos comprar uma TV nova com uns 30% de desconto, no mínimo.
A coroa assentiu. Foi a única coisa boa que a seleção me deu nesses últimos anos.
Obrigado, CBF.