Eu estou aqui.
Em quantos me transformei até o nosso infeliz encontro. Escondi-me; empilhei tapetes e móveis contra a porta, na tentativa de, um dia, frustrar-te a entrada. Ver-te era o pior dos horrores, e ainda hoje me arrepio do braço ao teto só de pensar que um dia teria de aportar-te na estrada. Não ando mais nas rodovias, mas continuo pensando em ti.
Quando me afastei, você me acompanhou e nunca deixou de se fazer presente — seja pela força maior da sociedade em que vivemos, seja por sua inércia em estar perto de mim. Perene, e tampouco escuso, você habitava minha mente e não me permitia negá-lo.
Na fila da padaria, onde eu ensaiava para ti a saudação que daria ao padeiro; na fila de embarque do aeroporto — você estava ali. Preso à minha mente como quem deseja dizer um oi e, logo depois, recua no arrepio do horror.
Estive ali, empurrando-te para baixo dos tapetes. Em toda oportunidade, bati-te a porta na cara. Aspirei tua poeira, lavei a sujeira do teu prato e fiz de ti meu pior inimigo. O pior? Casado com minha melhor amiga.
Estive ao telefone com ela inúmeras vezes nesta vida. Fiz do seu ouvido uma verdadeira privada e despejei tudo o que tinha a dizer. Ela escuta, calma e paciente; guarda tudo em si como um oráculo anota os pensamentos do aprendiz numa nova sessão. Nada me diz, a não ser: “tem paciência, o que é seu há de vir, e vem com muita força”. Neguei-te qualquer conhecimento, atribuí-te os piores adjetivos e, um dia, duvidei até de que tivesses capacidade de pensar.
Você diz: de lá não me traga nada. Mas por quê? Seria o remorso de quem um dia julgou ter uma amiga e nada encontrou — ou o fim de uma relação que nunca começou? Penso em ti todos os dias, e sei que não sou perfeito. Penso em ti como o peixe se atira ao mar e, mesmo assim, tenho dificuldade de chegar até ti. Por vezes, o amor foi tão grande que ultrapassou a esfera do próprio absurdo.
Estive contigo quando os dois brigavam. Estive ali, olho no olho, compassado em cada respiração. Conheço-te como uma confidente — daquelas que não temem dirigir o olhar e dizer a palavra quando se faz necessária. Estiveste ali quando eu também não era boa pança, e te afastaste quando viste que dali não aguentavas mais um segundo.
Esteve distante e, apesar de tudo o que te afeta, fizeste questão de permanecer afeta. O amor que se forja nas trincheiras das batalhas emocionais é maior do que qualquer ferimento de bala. É, contudo, uma pena que eu tenha deixado tudo chegar aonde chegou. É lamentável que tenha deixado de ir ao momento que consagrou toda uma existência. Mas é, também, de se compreender que eu não estava bem.
Estive fugindo de você. De você, que me faz existir e que, quando me olho no espelho, me diz: oi. Neguei tua presença e corri de ti como um papa-léguas. É uma pena, no entanto, que cada passo dado para longe de ti se torne um abismo enorme no decorrer dos dias. É lamentável que, sempre que me dirijo ao espelho e não falo contigo, tua voz vá baixando.
Baixa, baixa, baixa, e fica quase miudinha, ali, bem no cantinho. Dá para pegar com uma pinça. Tua existência é perene: desde que um raio de sol um dia te iluminou, ficaste marcado para o resto dos tempos possíveis.
Não corras de mim, companheiro. Sou eu, aqui. Não tive a intenção de te assustar — apenas a de cantar uma canção de ninar sempre que precisares. Bravo é o guerreiro que pega a pinça e vem me catar. Eu sei, você queria me anular. Mas não conseguiu, e jamais conseguirá. Por menor que eu seja, terás de me aturar.
É no raio de sol e na penumbra da lua que falo contigo. Foi tão difícil assim? Sério que demoraste tanto para me encontrar? Ora! Tão inteligente como tu! Pensei que logo fosses descobrir. Eu estava aqui o tempo todinho. Toda vez que você se senta diante desse computador e escreve, eu estou aqui.
Tentei falar contigo esse tempo todo. É uma pena que tenha demorado — mas é uma felicidade que tenha chegado. Chegue para ficar.
Quer uma xícara de chá?