Mulher

Hoje é dia das mulheres e a prosa que escrevi não foi sobre elas. A dor das borboletas dançando incessantemente no meu estômago, assim que notei esse fato, me fez pegar uma dose do mais calibrado whisky e pensar: quem foram as mulheres que passaram pela minha vida? É inevitável que um exercício como esse não passe por aquelas que julgo serem as mais importantes. As mais marcantes. As que mais me atravessaram. Mas sempre com a certeza de que verdadeiramente atravessei apenas uma.

Mamãe. Essa, com toda a certeza desse universo finito em galáxias e infinito em possibilidades, foi a única mulher que verdadeiramente atravessei até aqui. O olho lacrimeja, a vermelhidão o toma, e tenho certeza das palavras que escrevi. Mamãe foi a mulher que escolheu tirar de si para dar a mim — tirar do seu ventre a minha vida. E da sua prisão, fez a minha liberdade. É difícil entender como uma mulher tem a coragem de escolher um caminho como esse. Olhando para trás, vendo todas as fotos que marcam a minha infância, é nítido que pude passar por ela — e com toda certeza, ela passa por todas as minhas fases. Sei, com a mais cortante certeza, que no dia em que sua finitude assim se exercer, serei o ser mais triste dessa terra. Nem que seja por alguns segundos, mas o mais triste.

Você apoiou tudo que fiz, até o que fiz de errado. Quando optei por usar drogas, era nítido na sua face as rugas se formando. A preocupação tomava conta de você como uma capa de chuva em pleno deserto. Você não era capaz de entender por que tomei aquele caminho — e desconfio que até hoje seria difícil entender. Viver numa mente onde cada palavra corta como lâmina e cada olhar revela uma sensação diferente transforma a própria pessoa num indivíduo cheio de dúvidas e de poucas certezas. Passar por aquilo era necessário, mas ninguém disse que seria fácil.

Além de tudo, o amor de mãe é o único verdadeiramente incondicional nessa vida. Sei que no dia em que a sua finitude se exercer, nunca mais serei amado da mesma forma. Cada palavra, cada olhar, cada ligação — tudo conta como único. Como a certeza de que o sol nunca mais irá raiar, tenho a certeza de que nunca mais terei tamanho amor.

Ainda assim, tomei decisões que moldaram o meu caráter — cheio de bolhas e fissuras de quem aprendeu com a dor das drogas e da solidão o quão difícil era viver. Lembro que, com dez anos, você ficou muito doente. Tinha plena certeza de que talvez nunca mais a visse assim que aquele portão fechasse. Ele fechou. Comecei a chorar sem parar, sem aguentar tudo que estava acontecendo e sem a droga para me ajudar. É difícil lembrar, reviver — mas é a certeza de que sempre tive apenas a sua companhia. A companhia de um amor como esse é muito, muito rara.

Sento num colchão baixo, quase rente ao chão. Ao meu lado, uma mulher da vida — dessas que ganham o sustento fazendo a felicidade de homens que, por qualquer razão, não a encontram sem pagar. Ela deita ao meu lado e começa a me acariciar. Peço que pare. Estava cortado por dentro e sabia que ali estava acontecendo algo muito pior do que um programa qualquer. Você estava ali porque o pai da sua filha a abandonou e o dinheiro logo ia faltar. Deitava com cinco ou mais homens por dia para sobreviver — e eles tiravam de você tudo que sempre sonhou: sua integridade, sua sanidade, sua capacidade de amar. Mas por quê? Porque você ama. Ama tanto a sua filha que aquela dor não era nada comparada a vê-la chorando de fome. De dor. De falta.

O tempo passou e nunca mais consegui parar de pensar em você. Na sua filha. Na dor que sentia toda vez que deitava naquela cama para tirar oitocentos ou mil reais para pagar o leite dela.

Também não cumpri minha promessa. Quando vi o seu sofrimento, tinha decidido para mim mesmo que pararia de uma vez de contratar acompanhantes. Não consegui atravessar aquilo sem guardar um pedaço de mim ali. Tudo doía demais — a sua face, a necessidade de vocês e a minha própria dor. A dor que crescia em mim a cada dia de não me achar capaz de conquistar alguém sem pagar. No fundo, eu tinha chegado a acreditar que não poderia ser amado.

A minha necessidade de amor me guiou. Busquei, viajei, trabalhei com todas as forças para que isso fosse possível. Você apareceu em Brasília. Linda como os arcos de um girassol e brilhante como o sol — ter o seu amor era tudo que eu precisava para sair daquele buraco. Minha obsessão por você é algo que até hoje não entendi ao certo. Olhava para a sua sombra e sentia uma alcateia inteira tentando subir pelo meu estômago. Você foi minha primeira paixão e eu queria acreditar que poderia tê-la na minha vida. Mas não pude. E até hoje carrego uma culpa pesada como âncora por ter te desrespeitado.

Estou carregado de lágrimas. Uma pausa entre um parágrafo e outro revela minha incapacidade de seguir sem me entregar a cada lágrima de sofrimento e nostalgia. Você passou pela minha vida e deixou uma marca enorme. Demorei demais para te superar. Mas a dor de te amar sem ser amado de volta não foi nada perto do que a outra fez comigo.

Nunca me separei por completo da prostituição. Cada mulher era uma nova descoberta, uma nova validação, uma nova possibilidade de ser amado. O tesão de ainda ser jovem camuflava a esperança emocional que depositava em cada encontro.

Você apareceu quando eu tinha acabado de chegar aqui. Era novo, imaturo e preso numa fantasia que não conseguiria sustentar. Era simples: eu te pagava e você virava minha namoradinha por algumas horas. Não era um acordo simples — eu pagava algumas contas suas. Era diferente, mas era prostituição do mesmo jeito. Eu te olhava como uma mulher que precisava de ajuda para seguir a vida; você me olhava como um cofre cheio de moedas.

Você me ensinou a não confiar. Contei todo o meu drama — as vezes que dormi chorando por ter me apaixonado sem ser correspondido, as vezes que me humilhei, as vezes em que falei da dificuldade que tinha de confiar por ter sido profundamente machucado antes. E você foi lá e fez de tudo para que esse padrão não só continuasse — como piorasse.

Você me custou muitas horas de terapia, mas te superei. Esses dias te mandei mensagem e você me mostrou, mais uma vez, quem é. Infelizmente, não consigo encontrar palavras gentis para você. Desculpa.

Passei por tudo isso. Doeu muito, mas passei. Hoje tenho apenas uma certeza: o amor que mamãe me deu é único. Nunca mais encontrarei nada parecido — e tudo será como é hoje: frio, gélido e solitário.

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