Chego de mais uma calorosa noite de aulas. Apavorados, desinteressados, desentendidos: todos esses podem ser adjetivos para aqueles que lá estavam. A noite é quente. São Paulo não anda perdoando; o clima é roleta russa. Com as têmporas suando e sentindo cada fio das minhas veias no cérebro, decido que seria de bom tom abrir uma cerveja. Blue Moon. Nada melhor que isso. Calma, tem algo melhor sim: essa cerveja com um disco da Billie Holiday. Contudo, quão sortudo eu sou por poder fazer isso?
Essa questão fisgou meus pensamentos por mais de um dia. Andando pelo largo da Avenida Ibirapuera, tento chegar à academia, ambiente que abandonei silenciosamente enquanto o calendário brasileiro não começava, de fato. O caminho é curto, mas cheio de moradores de rua e catadores de latinhas.
Estou bem trajado: camisa do ano do Santos, bermuda esportiva e um tênis de corrida bem desenhado e chamativo pelas cores. Ando olhando sempre para trás e para os lados, na esperança de antecipar ou evitar qualquer contato com bandidos. Muito preocupado com eles, um senhor catando latas usadas passa perto de mim, quase esbarrando. Olho para ele e peço desculpas. Ele cospe no meu tênis.
Eu bem poderia ter algumas atitudes. Sair esbravejando com ele, humilhá-lo mais do que a própria vida o faz, colocá-lo numa situação ainda mais difícil. Poderia acionar o guarda municipal na esquina da avenida, que finge ver tudo. Poderia até espancá-lo. No entanto, sou do tipo cujas pernas param quando muita surpresa me toma. E aquilo me tomou.
Fiquei tomado por uma angústia terrena. Levantei um número alto de hipóteses. Pensei que ele poderia torcer por um time rival. Pensei que poderia estar sob efeito de drogas alucinógenas. Pensei ainda que poderia só querer briga para me arrancar alguns trocados por comoção. E, no fim, descobri que ele apenas não se importa.
Não se importa. Que consequência poderia ser pior? Convenhamos: se alguém chegou até ali, muito já passou nessa vida. Muito já faltou nela. E agora está ali, lutando a céu aberto dia após dia, sem o senso de pertencer a essa espécie que chamaram de espécie humana. Mas eu não pensei só nele. Pensei em mim também.
Se você, caro leitor, que paga internet para ler a prosa que te mando, acha que um dia não chegará a essa situação, temo que esteja enganado. Tanta coisa pode acontecer; até o sol pode não nascer. O que eu faria na pele dele? Será que eu conseguiria sobreviver? E aí acabo lembrando do sentimento que mais me marca desde a adolescência: a ingratidão.
Entro nela como um navio entra numa eclusa. Meus pensamentos soturnam em torno de qualquer coisa que possa me ancorar na felicidade de ser grato. Na felicidade e na certeza de saber que aquele que não me permite estar naquela situação — mas numa bem melhor — sabe que eu sou grato.
Mas não é assim que funciona. Já ouvi do meu pai coisas terríveis:
— Você é muito ingrato.
Basta. Bastam essas palavras para que você passe momentos e momentos rememorando cada pedaço da sua vida em busca de uma explicação. Basta para que você tenha a certeza de que não agrada àquele que não te deixa passar uma vida como aquela. Mas onde mora a verdade?
Essa pergunta não é só minha. É objeto de obsessão de filósofos ao redor do mundo há séculos. Mas será que eu estou sendo ingrato ou meu pai é mentiroso?
Não foi a primeira vez que ouvi coisas assim. Na verdade, eu já estava habituado.
Continuo a caminhada com o tênis sujo mesmo. Que poderia fazer ali para melhorar? Nada. Caminho imerso em pensamentos. Pensamentos sobre a sociedade cruel em que sempre vivemos. Sobre os meus luxos. E sobre meu pai.
O ar-condicionado que agora entra pelos meus poros foi comprado por ele. A televisão em que escuto música, também. O português que aprendi na escola foi ele quem pagou. Os traumas que tenho, ele quem criou. A vida psicológica cruel que finjo entre piadas, ele também ajudou a moldar.
Então eu sou ingrato ou fruto do ambiente?